segunda-feira, abril 13, 2026

Matéria sobre o Aniversário de Fortaleza - 300 anos - 12/04/2026, por Marcos Sampaio

Matéria publicada em 12 de abril de 2026, no Jornal O Povo, Caderno Vida & Arte




UM DELÍRIO SOBRE UMA FORTALEZA QUE COMPLETA 300 ANOS RECONHECENDO OS ARTISTAS QUE A CONSTROEM

Marcos Sampaio, editor do Vida & Arte e crítico de música


No dia 20 de março de 2022 usei este espaço para imaginar como Fortaleza deveria comemorar um mun do livre da pandemia de Covid-19. Criei uma longa programação que teria Pré-Carnaval na Praça do Ferreira, Ednardo e desfile de maracatus na Avenida Domingos Olímpio, Fagner no Theatro José de Alencar (TJA), roda de rappers no Mucuripe, Obskure no Bom Jardim e por aí vai. “E tudo entraria pela noite e se encerraria no dia seguinte, ao nascer do sol com Teti interpretando seu disco ‘Equatorial’. Na hora dos primeiros raios de sol, ela cantaria ‘Passarás, passarás’ com os versos ‘Tenta como eu ser pássaro e passarás, passarás as penas. Tenta apenas ultrapassar o penar’”, assim encerrava meu devaneio em que Fortaleza faria uma festa para fortalezenses.

Devaneio em partes, pois uma política de cultura descentralizada virou marca de Helena Barbosa à frente da Secretaria da Cultura de Fortaleza (Secultfor). Ciclo Carnavalesco, São João, Revéillon e outras festas têm replicado esse modelo em que diversos palcos se espalham pela Cidade. Solange Almeida, por exemplo, levou uma multidão para a abertura do Pré-Carnaval de 2025 no Conjunto Ceará. Sendo Helena uma rara gestora que circula e aproveita a programação da própria gestão, imagino como seria se essa política descentralizada recebesse mais verba e fosse um pensamento generalizado na gestão da Cidade.

Imagino também como seria se esse incentivo a uma cultura que se espraia por todos os bairros acontecesse diariamente. Se as praças fossem tomadas por tantos artistas residentes em Fortaleza, que falam sobre nossas ruas, nossa gastronomia, nosso clima, nossos hábitos. Se o público fosse incentivado a se reconhecer nesses artistas, como quem vê um espelho. Se o Museu da Imagem e do Som fosse menos um espaço que oferece mais do mesmo e preservasse, de fato, a memória visual e sonora da Cidade.

Imagino que se cuidássemos melhor dessa memória sonora poderíamos ser autossuficientes em música, arte e autoestima.  Sim, por que, como disse outra vez, Fortaleza tem um problema de autoestima que lhe leva constantemente a buscar validação lá na outra banda do País para acreditar que alguém daqui tem valor. “Não visitamos nossa história, pouco valorizamos nossa cultura, ignoramos os artistas que nasceram e querem crescer por aqui. Um museu como o do Ceará está há meses fechado, mas, vamos e convenhamos, não faz muita falta por que não existe interesse em visitá-lo nem por parte da população local, nem por quem cuida do turismo por aqui”, escrevi em 17 de abril de 2025. E, pasmem, o Museu do Ceará continua fechado!

Fato é que Fortaleza completa nesta segunda-feira, 13 de abril, seus 300 anos sem ter feito um dia sequer de terapia. Imagino que esta seria uma data ótima para ganharmos a Avenida Ednardo (de frente para o mar), a Praça Nonato Luiz (com belo coreto), a travessa Luciano Franco (em região boêmia), a Galeria Edmar Gonçalves (música e artes visuais), a Escola Profissionalizante Izaíra Silvino (maestrina que formou tantos), o Museu do Pessoal do Ceará (abrigando aquela turma e os mais novos), o Centro de Referência Ana Fonteles (“cearense” nascida no Piauí), o Teatro Mimi Rocha (programação popular), o Palco Zé Menezes (na Praça José de Alencar), a Rua Edson Távora (que chegasse no Conservatório), a estátua de Cristiano Pinho (e outras celebrando grandes músicos). Por enquanto, só imagino. Quem sabe nos 400 anos…



DISCOS PARA CONHECER FORTALEZA

  • “BORA” (2010) – projeto coletivo autoral produzido pelo escritor Alan Mendonça. Em 20 faixas, reúne nomes como Aparecida Silvino, 5 em Ponto e Eletrocactus.
  • “PRAIA LÍRICA” (2011) – Mona Gadelha presta homenagem camerística à música cearense dos anos 1970 acompanhada pelo piano de Fernando Moura.
  • “ALÉM DOS RÓTULOS” (2017) – disco que virou sobrenome da banda de rock Renegados. Destaque para a faixa “Sertão da Alma”.
  • “SÍNTESE” (1995) – Marta Aurélia mistura canções próprias com outras de Flávio Paiva, Paulinho Moska e Pedro Luis num disco de alma pop.
  • “QUAISQUER CANÇÕES” (2007) – músico e artista plástico Alano Freitas reúne amigos num disco instigante e multifocal, que revela muito de sua forma de ver o mundo.
  • “SOLEDAD” (2016) – cantora e atriz cearense, hoje radicada em São Paulo, Soledad faz música urbana que mistura referências locais e nacionais. Produção de Gui Amabis.
  • “ALMA LEVE” (2013) – cantora experiente em diferentes palcos, do Carnaval ao barzinho, Lídia Maria apresenta canções próprias inspiradas no melhor da MPB.
  • “PÉROLAS DO CENTAURO” (2013) – Pingo de Fortaleza celebra nossa música em disco duplo. Em um, interpreta clássicos cearenses. No outro, amigos interpretam suas canções.
  • “CANÇÕES” (2002) – o grande violonista Nonato Luiz reúne suas parcerias com Fausto Nilo, Abel Silva, Capinam e outros. O time de intérpretes é a nata cearense.
  • “MESA DE ESQUINA” (2008) – o letrista Silvio Barreira reuniu parcerias e amigos num disco que remete à autêntica boemia local.


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PONTO DE VISTA
Rosa Primo, bailarina, coreógrafa, jornalista e professora do programa de pós-graduação em artes e dos cursos de bacharelado e licenciatura em dança da Universidade Federal do Ceará (UF).

Qual a Fortaleza da nossa dança? A Fortaleza que é o teatro!

Ao completar 300 anos, Fortaleza nos obriga a perguntar: o que sustenta, de fato, a força da dança na Cidade? A resposta não está apenas nas instituições, nem pode ser reduzida a elas. Está, sobretudo, na tensão entre o que se estrutura e o que insiste em escapar.

É inegável que houve avanços. Nas últimas décadas, políticas públicas, escolas e equipamentos culturais contribuíram para consolidar um campo da dança mais visível, ampliando acessos e formando artistas. Há, portanto, uma dimensão estruturante, feita de escolhas pedagógicas, visões de mundo e processos de institucionalização que moldam aquilo que entendemos como dança em Fortaleza. Mas é preciso reconhecer: estrutura não garante vitalidade. A dança não se sustenta apenas por aquilo que se organiza.

Grande parte de sua força nasce fora dos espaços legitimados. Está nas periferias, nos coletivos independentes, nas práticas que não esperam autorização para existir. Está nos corpos que não se enquadram em padrões técnicos, mas que produzem experiências potentes de criação. A reinvenção, nesse sentido, emerge das margens e de corporalidades dissidentes – no gesto menor que insiste em poéticas insurgentes às formas hegemônicas, movendo-se entre o improviso e a necessidade, entre o desejo e a sobrevivência.

Esse cenário evidencia que o campo da dança segue atravessado por desigualdades e disputas. Talvez por isso seja necessário deslocar o olhar. Mais do que buscar a Fortaleza naquilo que já está instituído, é preciso percebê-la no movimento. No corpo que experimenta, que insiste, que cria. O corpo em cena não é apenas execução, mas relação e produção de sentido.

Fortaleza é marcada por desigualdades, mas também por uma intensa capacidade de invenção. A dança que emerge desse contexto carrega essa marca: é atravessada por conflitos, mas também

por potência. Por isso, é preciso evitar leituras celebratórias que ocultam as lacunas.


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PONTO DE VISTA
Hertenha Glauce, atriz, diretora e produtora cultural


A Fortaleza que é o teatro!

Pensar os 300 anos de Fortaleza nos traz tantas camadas para análise e talvez nenhuma dê conta do tamanho que é essa metrópole, mas hoje quero me deter em apenas uma destas tantas camadas: o teatro.

Fortaleza é forte no teatro de grupo. Pense num povo insistente, criativo e acima de tudo, resistente!

Há em Fortaleza, um movimento de teatro de grupo forte, embora já tenha sido mais atuante enquanto coletivo, inclusive com festivais nos quais os grupos se apresentavam, discutiam e se fortaleciam. Teatro como arte coletiva.

Temos grupos com mais de 60 anos de história e isso é tanto! Tivemos, inclusive, no último Festival de Teatro de Fortaleza, em 2025, uma homenagem ao teatro de grupo. Foi lindo! Mas essa ação foi isolada, trazida como tema, pela OSC vencedora da licitação que organizou o festival. Pergunto: e a Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor), entendeu a força dos grupos de teatro? Sigo torcendo que sim e aguardando ações concretas.

Os grupos de teatro de Fortaleza se juntam, se ajudam e torcem uns pelos outros. Há um entendimento que não dá para depender de políticas públicas — que são essenciais e continuaremos lutando por elas. Lutando, inclusive, para descentralizar e chegar a quem não consegue ser atendido pelos editais, que além de escassos, são burocráticos.

Volto aos grupos para dizer o quanto os admiro, os prestigio e me irmano. Também tenho grupos. Sim, no plural. O principal deles, é um grupo institucional. Mas tenho outros dois grupos, independentes, sem subsídio e sofridos com a falta de incentivo. E enquanto artista independente, reforço o quanto um grupo pode crescer, evoluir e se reconstruir, quando tem apoio e incentivo.

Seguimos por aqui, lutando, entendendo, refletindo e celebrando. Viva o teatro de grupo em Fortaleza!


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PONTO DE VISTA
Talles Azignon, escritor, poeta, mediador de leituras e integrante do Conselho de Leitores do O Povo.

Qual é a Fortaleza dessa Cidade na literatura?

Em Fortaleza, tem um poeta em cada esquina? Quem disse isso esqueceu de completar a informação: tem, mas morrendo de fome.

Nas comemorações de aniversário de nossa cidade, depois de escrever tantos poemas para ela, falando dos bairros mais próximos e mais distantes do Centro, era esperado eu compor um louvor para seus 300 anos. Escrever para exaltar a capacidade literária nascida da interessante (e improvável) mistura de uma cultura de base predominantemente oral. Ao mesmo tempo, cultura esta calcada na esperança de uma melhor colocação social através dos estudos e da intelectualidade.

Estruturalmente tudo é contra nós: escassez de livrarias; inexistência ou inoperação de bibliotecas públicas, que são espaços de trabalho e difusão para escritoras e escritores; editais de publicação raros e de valores insuficientes para cobrir todos os custos e investimento necessários para alavancar uma obra literária.

Carreira literária, aqui, é somente para quem consegue bancá-la, mesmo sem promessas de grandes retornos. De todo modo, não podemos negar nossos grandes nomes na literatura contemporânea e a relevância deles para o cenário, até internacional: Socorro Acioli, Ana Miranda, Tércia Montenegro, Lorena Portela, Stênio Gardel, Natércia Pontes, tanta gente incrível de quem sou leitor e admirador. Esses nomes, entretanto, sustentam suas carreiras fora da nossa cartografia, ou pegaram impulso fora para conseguir uma melhor colocação aqui.

Se isso acontece desde o carneiro de Ednardo, não precisava ser assim.

O Ceará conta hoje com leis de incentivo para o desenvolvimento do audiovisual, da gastronomia; as galerias são abertas na Cidade e se conectam com o Brasil e o mundo.

É verdade que muitos desses méritos são mais do Estado do que do Município. Mesmo assim, nosso mercado editorial, com potencial de se agregar a outras cadeias econômicas: educação, turismo, cultura, artes, entretenimento e comunicação, vai ficando para trás, ignoradas por pessoas crentes do futuro ser tão qual as “black mirrors”, as telinhas de dispositivos eletrônicos, prometidas a todos nós como ferramenta principal de democratização e acesso. Só esqueceram de combinar com às bigtechs.

Lembremos: estamos falando da Capital mais rica do Nordeste. Noves fora, nos resta essa paixão desenfreada pela linguagem poética e a teimosa esperança de um “agora vai” eterno, em que a literatura de Fortaleza se agarra com unhas e dentes.

Por isso, existe uma rede de pessoas, de número significativo, fazendo saraus, organizando bibliotecas comunitárias, sustentando sebos, apresentando a literatura produzida na Cidade dentro das salas de aulas de escolas públicas, embora algumas dessas escolas não contem com bibliotecas com acervos especializados para tal. Tais pessoas mantêm abertas as vias por onde percorrem letras, palavras, enredos, paixões e memórias.

Nós, leitoras e leitores, poetas e autoras, mediadores de leituras, fazedoras de bibliotecas, organizadores de clubes de leituras, nós somos a Fortaleza da literatura dessa Cidade.